Resultado de extenso trabalho prático, de muito estudo, aliados à profunda reflexão, Clarice Pierre escreve a respeito de um tema intrigante e perturbador: a nossa finitude. Com o objetivo de reintroduzir a morte e o morrer em nossa linguagem cotidiana, tornando-os parte integrante da vida, ela aborda com surpreendente naturalidade e confortante delicadeza os nossos mais íntimos temores ligados a questão.
Frutos que somos de uma cultura estereotipada e competitiva, que nos impele ao isolamento e aos relacionamentos impessoais, com frequência somos levados a crer que nos sentiremos muito melhores suprimindo de nossas vidas os afetos penosos, os sentimentos dolorosos, ignorando nossa inexorável finitude.
Logo no início do texto percebemos o quanto essa idéia é falsa. Falar abertamente de questões existenciais aflitivas e dolorosas, entre elas nossa finitude, que marca a similaridade entre os seres vivos, reforça o reconhecimento da responsabilidade que temos por nossa própria vida e a de nosso próximo. Descobrimos que para estar totalmente vivo é necessário reconhecer a morte.
Neste percurso, percebemos paradoxos curiosos de nossa sociedade, como exemplo, o observado na frieza e impessoalidade das unidades de terapia intensiva, onde não há lugar para o medo ou quaisquer outros sentimentos, quando mais precisamos de conforto e afeto.
Percebemos o quanto a dor e a frustração das doenças crônicas, os aspectos traumáticos de um diagnóstico de câncer, podem nos levar a uma verdadeira alienação da situação real se não formos capazes de interagir com pessoas significativas que possam nos ajudar a tolerar afetos tão dolorosos.
A profissionais de saúde, Clarice dedica um capítulo e ressalta a importância da necessidade de auto-reflexão a respeito dos próprios sentimentos, crenças e temores com referência à doença e à perda. O sentimento de desesperança em face da moléstia terminal do outro, o medo da aflição demasiada e o desejo de evitar causar mais sofrimento e desconforto àqueles que se pretende ajudar podem impelir o profissional ao distanciamento e à passividade, quando mais se precisa receber ajuda compreensiva para desenvolver estratégias de enfrentamento diante de graves problemas pessoais.
Ela nos aponta o quanto o bem-estar psicológico e o enfrentamento da situação real pode levar os pacientes a ficarem mais satisfeitos com os cuidados que recebem, aumentando a confiança nestes cuidados, diminuindo a aflição, o medo e outros sintomas psicológicos, intensificando a função imunológica, ampliando a qualidade e o tempo de sobrevida.
Ao abordar os aspectos psicológicos da morte, o processo de luto e o enlutamento, ela chama nossa atenção para o fato de que saber perder é essencial para o bem viver. Se não estivermos preparados para perder, a dor e o sentimento intolerável de fracasso e impotência podem nos conduzir a atitudes regressivas e disfuncionais. Através de mecanismos de defesa inconscientes, afastamo-nos da realidade e da oportunidade do verdadeiro autoconhecimento.

