A Unidade de Terapia Intensiva

Desde 1930 a morte começou a ser oculta em hospitais, deixando de ser parte da vida.

Em minha experiência e pesquisa hospitalar observei que o hospital e principalmente a Unidade de Terapia Intensiva passaram a ser lugares onde a assepsia, a medicina e a moralidade são mais importante que o doente, inclusive para muitas famílias que encontram aí um lugar para esconder o doente que não conseguem encarar ou suportar. Torna-se assim, a morte impessoal e absolutamente solitária.

É na U.T.I. que se vê a maior luta da tecnologia contra a humanidade. Com todo o avanço tecnológico tenta-se superar tudo que pareça hostil àquele ambiente, e contra o processo da natureza da morte verifica-se a impessoalidade que o profissionalismo pode levar, eliminando quase que por completo a relação médico- doente.

O conceito científico racional deixa claro que neste espaço a relação horizontalizada e o exercício da afetividade não podem acontecer, pois deixam o profissional fragilizado e exposto diante do sofrimento e dor de seu semelhante.

É como se o médico tivesse o tempo todo desempenhando um papel de uma personagem, onde o script nada afetasse o ator, não se permitindo envolver para não sofrer com a história pessoal de cada um.

O esforço para a realização deste papel é tão grande e intenso que ao invés de sentir,passam a racionalizar cada vez mais, que a humildade e humanidade não podem ser exercidas. A aceitação do próprio limite, conhecimento e perdas iminentes transformam-se em defesas de ego, como a arrogância, muitas vezes expressadas inconscientemente contra o doente, o familiar, e até mesmo contra a equipe multidisciplinar de trabalho.

Deixam de ser aqueles que um dia optaram por cuidar de seres humanos, de compartilhar do processo de cura para se tornarem simplesmente, solucionadores de problemas e controladores do caos.

Na U.T.I. a tecnologia da medicina pode ser comparada as das naves espaciais ou das salas de comando da NASA, com monitores cardíacos, respiratórios, renais, cerebrais, onde zumbidos, bips e ruídos montam um cenário high-tech, em que os doentes são separados de suas famílias, negados da naturalidade da morte e da necessidade de efetuar o ciclo da vida. São abandonados, com a melhor das intenções `equipe de profissionais que não o conhecem, não sabendo portanto de suas necessidades e vontades.

Ao longo de minha permanência em hospitais, pude acompanhar alguns doentes terminais durante a evolução de suas doenças, e perceber que alguns profissionais, quando sabiam que nada mais poderia ser feito pelo doente, acabam por abandona-lo como um objeto que não merece atenção e chegavam a diminuir sua presença diante daqueles que não poderiam trazer-lhes o sucesso ou a confirmação de seu espetacular desempenho profissional.

Preparados somente para vencer, para muitos profissionais de saúde, perder para a doença , tão amparado pela tecnologia da U.T.I. , traz a sensação de falha, de impotência, de perda de controle sobre o caos que a doença traz , criando uma situação transferencial protetora que o afasta de seu doente no momento em que talvez deveria estar mais próximo.

Se o médico não estiver atento para perceber o quanto isto tudo mobiliza seu interior, como suas convicções e valores arraigados o ameaçam, poderá continuar exercendo um poder que me parece inútil e absolutamente cruel, que é o prolongamento da vida monitorada, no momento da morte, tentando conseguir o controle da duração e do momento em que ela deverá acontecer. Estará tomado pela fantasia de interferir no processo do ciclo da natureza.

Mais recentemente a sociedade tem percebido a necessidade de evitar manobras irracionais e medidas dolorosas de prolongamento da vida, quando a morte se torna próxima e inevitável.

Morrer ao lado dos que nos reconhecem como semelhantes e nos admiram pelo que fomos durante a vida traz a dignidade da morte.

Esta conscientização contudo, deve ser mais amplamente desenvolvida para que a aceitação da própria morte , como processo natural da vida, seja sem terror e a esperança seja mantida de modo real e não se torne uma luta desesperada na tentativa de impedir a morte.