O Fenômeno da Morte
A sociedade expurgou e baniu a morte do convívio do homem contemporâneo, transformando-a em um tabu, em algo assustador e angustiante.
Hoje vivemos como se jamais fossemos morrer. A urbanidade, o progresso, o avanço da biomedicina, entre outras coisas, afastam o homem dos fenômenos de nascimento e morte em casa. Com isso, os aspectos destes fenômenos, que são pontos de uma mesma reta, e a visualização do início e do fim ficam diametralmente opostos e irreais.
Aprendemos hábitos, atitudes e comportamentos que nos trazem conflito interior e situações de difícil resolução. Não nos é ensinado a renunciar a apegos materiais e emocionais.
Desde muito cedo, só aprendemos a buscar e obter prazer e vitórias, a ter fascínio pelo poder, mas nunca a perder, a encarar a dor, o sofrimento, formando assim a estrutura da auto-imagem e do ego que formam o homem não espiritualizado. Então, nos transformamos em prisioneiros de nosso próprio ego, que nos mostra de modo fantástico quem não somos e quanto somos.
A questão da imortalidade mobiliza o homem desde seu aparecimento sobre o mundo. A relação dialética vida-morte tem sido a principal preocupação fundamental do homem e a base de sua angústia existencial.
O tempo como limitador, a finitude do homem, o sentimento de absoluta impotência, a separação final, e a impermanência são as similaridades entre os homens. Filósofos como Platão, Kierkgaard, Heidegger e Sartre sempre estiveram preocupados com a vida e a existência humana, dedicando-se a reflexões sobre a morte, pois ambas são partes de um mesmo enigma e de um mesmo resultado, a finitude.
Estes filósofos, assim como muitos outros, concluíram que, à medida que nos conscientizamos de nossa mortalidade e fragilidade, poderemos mais intensamente valorizar a vida e viver sem desperdício de um só minuto de nossa existência, pois cada próximo minuto é um minuto a menos e não um minuto a mais. No século passado, a arte de morrer era a arte de viver, onde a única coisa a fazer era deixar a morte acontecer, em paz, tranqüila e sem impedimento.
A morte é limitadora, temporal e angustiante. Porém, é ela que nos impulsiona a lutar pela realização dos projetos de vida. Embora ela nos separe dos objetos de afeto, nos ensina também a percepção real, do outro e conseqüentemente de nós mesmos, levando ao autoconhecimento sem medo de vermos quem somos e o que realmente necessitamos para obter melhor qualidade de vida.
O objetivo deste livro é a reintrodução da morte na linguagem cotidiana do homem, abrir ampla discussão a respeito do tema, afim de torna-la parte integrante da vida, psicoprofilático à saúde, onde teremos uma sociedade menos ansiosa e angustiada com o medo paralisante e improdutivo diante da morte. Assim sendo, conseguiremos também efetivar correta e concretamente o processo de luto, dentro da realidade da perda, sem inibi-lo, numa espontaneidade facilitadora da dor, sofrimento e tristezas que ficam hoje em dia, tão cruelmente contidos.
Martin Luther King
Nenhum homem é livre se tiver medo de morrer.
Quando ele não teme mais a morte, então ele está livre para viver.